O ratinho Roi

 

     

Enquanto a avó Raty tratava dos agasalhos dos netos o Roi, fazia os trabalhos de casa, agachado ao pé dos pais que faziam planos para o futuro.

“Não brincar quando os gatos da Bi estão acordados”, escrevia o Roi pela terceira vez, pois ainda não sabia bem as regras de sobrevivência que todos os ratitos devem saber de cor.

-Ó avó, como é que sei, que os gatos estão acordados? Podem estar uns acordados e outros a dormir, não é?

-Olha bem para o teu irmão. Como sabes que está a dormir?

- Então, está de barriga para cima …

- Pensa antes de responderes! exclamou a avó. Tu só dormes de barriga para cima?

- Pois ...não… Fecho os olhos! É isso! Fecho os olhos.

- Claro, mas não deves  aproximar-te  de gatos, mesmo que estejam de olhos fechados. É melhor permaneceres longe deles em local seguro.

- Onde é isso?

- Em casa, meu menino! Em casa! A nossa casa é segura pois a entrada é num orifício do muro do jardim e nenhum gato é capaz de aqui entrar. Além disso, a pequenina entrada está escondida atrás do pé da roseira que cobre toda a grade do jardim.

- Mas o papá e a mamã podem sair de casa!

- Tem que ser, tratam do nosso sustento. Quando fores mais velho, veloz e forte, também podes ir com eles. Terás que treinar muito.

- Viva, aposto que finto todos os gatos das redondezas. Corro para um lado e quando vierem atrás de mim, corro para o lado contrário! Vai ser divertido! Eh! Eh! Verás serei o super-rato deste jardim.

- Pelo que oiço já te posso marcar mais 3 regras para escreveres:

1ª – Evitar ser visto por qualquer gato, mesmo que pareça  estar a dormir.

2ª – Usar o cuidado e a discrição para permanecer vivo.

 3ª - De ratos gabarolas não reza a história.

-Tanta regra avó! Aposto que as avós dos gatos , não lhes ensinam tanta coisa! Quem me dera ser gato, ou mesmo passarinho! Ninguém me tirava de cima das árvores e telhados! Havia de ficar bem bronzeado, ver todas as paisagens e fazer corridas com outras equipas!Seria fantástico,suspirou.

- Já ouviste falar de fisgas, de ratoeiras, gateiras e gaiolas?

- Eu? Não. O que é isso?

- Pensas que os nossos inimigos são só os gatos e que ser passarinho é fácil? Tens muito que aprender! Já ouviste falar de pessoas?

- Claro! Então a amiga da Bessi, que está sempre a bordar, não é pessoa? Não nos faz mal nenhum. Ainda ontem esteve aqui bem perto e não aconteceu nada.

- Pois, é boa pessoa mas… nem lhe passa pela cabeça que vive aqui uma pequenina família de ratinhos. Se fossemos mais, já tinha dado por nós! Seria uma desgraça! Uma matança, digo-te eu!

- Avó, olha que de passarinhos gosta ela! Bem vejo que deixa muitos cachos nas cepas para eles.

-Tens razão! Acredita ,no entanto, que há quem os prenda em gaiolas!

- Gaiolas avó! São boas?

- Se são! São casas tão seguras que uma vez lá dentro nunca mais se sai.

- Avó, prefiro fazer os deveres. Tenho o coração aos saltos! Este assunto parece perigoso!

- E é. Sabes Roi, há coisas muito mais difíceis de aprender que regras de segurança. Gostas comer, não é verdade?

- Nem se pergunta, avó!

- Pois um dia, hás-de descobrir que conseguir obter comida, todos os dias, é muito difícil. Pelo menos para os ratitos. É nosso dever prepararmos o futuro e aproveitar tudo o que o dia a dia nos dá. Não vale a pena ter medo do que pode acontecer e desperdiçar o dia de hoje. Por isso, estuda as regras e depois brinca o que te apetecer com o teu irmão, que já acordou.

- Gosto de ti, avozinha! disse Roi, abraçando-a e dando-lhe dois beijos muito repenicados.

- Também gosto muito de ti, disse ternamente a avó que sentia cada vez menos força nas pernas mas conservava toda a força do mundo para ensinar os netinhos. Como gostava de os ver felizes!