A urtiga envergonhada 
12/2/2013 - 03:53
Certo dia, a avó Ni reparou que no cantinho junto ao canteiro, perto da janela do quarto da avó Elisa, nascera uma pequenina urtiga. O seu primeiro impulso foi arrancá-la, antes que crescesse, mas lembrou-me a tempo, que ela é urticante e se defende de quem a ameaça.
- Não perdes por esperar, disse-lhe baixinho, lembrando-se das luvas de jardinar. E acrescentou:
-Depois de almoço, zás, era uma vez uma urtiga!
Ao voltar-se, reparou que mesmo ao lado da urtiga e cada dia mais viçosos, uns morangueiros bravos iam conquistando espaço. As pequeninas flores branquinhas iam dando lugar a morangos vermelhinhos.

- Vês, ora aqui estão plantas daninhas que qualquer um aprecia, disse olhando irritada para a urtiga. Nesse momento pareceu-lhe ver a urtiga encolher as folhas, ocultando-se o melhor possível entre
os amores-perfeitos do canteiro, mas nem isso a comoveu.
- Vais ver com quem te meteste!- Garantiu em voz alta.
-Está a ver? - Que mal lhe fez a urtiga? - Só a tem ajudado a afastar os gatos !Era Arak, o gnomo que de cima de um cogumelo reclamava indignado. Arak é o guardião da casa onde vive. Cuida da família e é muito amigo ajudando nas diferentes tarefas agrícolas. Clauss ouvia calmamente pois
sendo o duende defensor da harmonia nada o enervava. Eram mesmo amigos aqueles dois. Brincavam aproveitando o sol e a brisa que se sentia. - Que vais fazer? perguntou Clauss que conhecia o feitio travesso e brincalhão do amigo. - Espera vais ver a partida que lhe prego! respondeu Arak divertido.
Empoleirado no muro, Abanico o bruxo, apreciava toda a cena e exclamou indignado em surdina:
-Tretas! Instalam-se junto das outras, prometem salutar convivência. Depois, atraiçoam-nas. Estarão estes tontos convencidos que daninhas não causam dano? Devemos saneá-las, extingui-las. Servem-se da reprodução vertiginosa para destruir todas as ervas rivais. Parece que existem na natureza para estabelecer um cerco mortífero. Malditas! Aqui vai um feitiço para esta urtiga: 
" Pela força do bruxo Abanico,
Se te virem ao sol ou à lua,
Com o feitiço que em ti eu salpico,
Tua vida por fim se exclua"
Depois do almoço, regressou a avó determinada a erradicar a urtiga intrometida mas, malditos gatos! Lá estavam eles a subir para o canteiro dos amores-perfeitos. De súbito, o preto de patas brancas deu um salto e fugiu para a relva coçando-se desesperadamente.
- Malditos gatos estragam tudo. Que vida esta, gatos e urtigas! Não vir um vendaval que os levasse!- disse a avó irritada. E acrescentou:
- As luvas?-disse apalpando o bolso, - tenho a certeza que as trouxe no bolso do avental,- mau, e a tesoura?- também desapareceu?- disse olhando para todos os lados. - É melhor voltar à garagem, devo ter pousado em qualquer lado.
Arak e Clauss riam a bom rir enquanto a avó Ni vasculhava a garagem, a cozinha e todos os cantinhos do jardim procurando em vão os seus preciosos utensílios.
-Que te dizia eu? -Viste o gato a coçar-se? - Tão cedo não volta ao canteiro, garantiu Arak sorrindo.
- Afinal, como conseguiste que ela não encontrasse nada?- quis saber Clauss.
- Nada mais fácil. Levantei a mão direita e recitei:
- Longuinho, baixa a lanterna
Esconde tudo numa caverna.
Que teu hábito de monge
Mantenha da vista... TUDO longe.
- Longuinho? - Quem é esse?- perguntou Clauss
- Sei lá! Estudei isso há 200 anos. Deve ser monge e usar lanterna, mas não sei mais nada, esclareceu o amigo.
- E agora? Sempre te quero ver acabar este feitiço.
- Queres ver? Então escuta:
- Longuinho, amigo
Ergue a tua luz,
Tira do abrigo
O que te propus.
- Agora é só dar três pulinhos e dizer - Obrigado Longuinho.
Palavras não tinham sido ditas e já a avó Ni dava um pulo de espanto:
-Olha, as luvas e a tesoura!- estiveram sempre no bolso do avental! - Parece impossível!-acrescentou:
.- Estás a ficar velhota Maria Ni, é o que é, - antes que me esqueça, deixa-me ir tratar da saúde à urtiga.
E, se bem o pensou melhor o fez.
- Lá vem ela, com a tesoura!-gritou Clauss.
-Vamos a isto-disse Arak acrescentando rapidamente:
-Porta abrir
Sino tocar
Criança rir
Urtiga ocultar.
Logo, a luz do sol incidiu como um espelho e, "Zás catrapaz, gastavas de a ver mas não és capaz", a urtiga ficou mesmo invisível. A avó Ni bem a procurou mas nunca mais a encontrou.
-É bruxedo, sem dúvida, dizia de regresso a casa, - a não ser!...-que tivesse ido agarrada a um dos gatos que cá vieram de manhã...Por isso o preto se coçava tanto! - E eu que todo o dia lhe quis tratar da saúde! Eh !Eh!...
- E se são maldades do mafarrico?- Credo! - Abrenúncio!-pensou a avó, benzendo-se três vezes e beijando o rosário que sempre a acompanhava.
No jardim, a pequena urtiga respirou de alívio e, ainda meia encolhida, agradeceu baixinho:
- Obrigada, bons senhores.
- Ainda estás com medo? Tu és das plantas com menos razão para ter medo! Os outros é que devem ter medo de ti, disse Clauss satisfeito.
- Pois, eu sei, mas tenho tanta pena de ser como sou, disse a urtiga, e explicou:
- Sou peluda e faço arder a pele de quem me toca. Sei que é por isso que poucos me comem mas eu gostava tanto de ser bonita, ter flores perfumadas e grandes de cores fortes. - Foi por isso que vim nascer junto dos amores-perfeitos. - Tenho vergonha de ser tão feia e assustar tanto.- Desde que nasci desejo apenas" ser amada", nem que fosse só um bocadinho! " Ser amada deve ser um gosto", acrescentou pensativa.
- Pois eu sei que és a planta mais sortuda do jardim. Nós amamos-te tanto, mas mesmo tanto, que te tornámos invisível para todos excepto para nós.
- Agradeço muito senhor. Foi bem pensado, disse a urtiga, - pois se ninguém me puder ver, não podem ter medo de mim nem fazer-me mal.
- Estás enganada peludinha linda, não foi por isso que te ajudei, e explicou:
-E não me chames senhor, sou um gnomo, chamo-me Arak. Aqui o Clauss também não é senhor nenhum, é um duende. - Acontece que nós achamos as urtigas lindíssimas, justamente por não serem perfumadas. - Sabes lá, a maioria de nós é alérgico a perfumes. - Mas o mais bonito, útil e fofo do vosso corpo são os belos pelinhos das vossas folhinhas, explicou.
- Já vejo que se diverte à minha custa, disse a urtiga, baixando os olhos envergonhada.
- Enganas-te! Ficámos felizes por nasceres aqui perto da nossa casa. - É que nós chegamos a viver 400 anos e claro que quem fica velho tem mais dificuldade em se mexer, se é que me entendes!
- Não estou a perceber nada, disse a urtiga espantada.
- Eu explico, respondeu Arak, conheces alguma coisa melhor para arranhar as costas de um velho gnomo que uma felpudinha folha de urtiga?
- Felpudinha? Eu?
-E quando os mais novos querem brincar? - é convosco que o fazem! - o que se divertem com as cócegas que sentem ao roçar os pezitos nas vossas folhitas.
- Fica sabendo que poucas são as plantas que amamos tanto. E olha que o nosso amor é quase eterno. Não te esqueças! 400 anos é muito tempo. Por isso e enquanto o desejares ficas invisível mas, não esqueças de afastar sempre os gatos que a avó Ni não os quer nas flores.
- Assim farei, disse a urtiga felpuda dando um grande abraço com as suas folhas aos dois amigos. E acrescentou em tom divertido:
- Estarei sempre às ordens para qualquer coceira inesperada. E os novos amigos selaram ali um lindo pacto de amizade e entreajuda.
O bruxo Abanico nem acreditava no que acontecia bem defronte do seu nariz:
-Tenho eu 700 anos e aparecem estes dois gaiatos com feitiços tecnologicamente mais eficazes. E a velha confunde-me com um mafarrico, com um diabrete?- quero uma convenção de bruxos urgente ou peço a aposentação. -Tenho lá idade para uma desautorização destas!
Nessa noite, depois de fechar a casa a sete chaves, a avó meteu-se na cama quentinha e antes de adormecer pensou nos que iriam começar a trabalhar durante a noite. Foi por eles que pediu "Cresça o pão no forno, as almas no Céu e o bem no Mundo todo". E dormiu serenamente.